Dividir a mesma casa com muitas pessoas leva a muitos problemas. Se há algo que me irrita é quando você separa alguma coisa na geladeira, para comer mais tarde - aquele bolo que trouxeram do casamento da sua prima no qual você não foi - e, quando você volta, só encontra a vasilha ou o que quer que seja vazia, que, aliás, a pessoa que comeu nem se deu ao trabalho de tirar da geladeira. Pois assim acontece sempre que faço chá gelado. Naqueles dias quentes como o inferno, deixo toda uma jarra, 2 litros de chá, e quando vou à cozinha só encontro um restinho miserável, que, diga-se de passagem, é pior que encontrar nada, porque só aumenta a vontade.
Não seria, no entanto, um problema tão grande, se eu não fosse a única pessoa que preparava o chá. Mas eis que, um dia, chegaram os meus dois irmãos mais novos e me perguntaram entusiasmados como é que se fazia chá. Disse a eles que bastava ferver - deixar esquentando até fazer borbolha - a água, colocar o sabor de chá que querem e deixar fazendo a infu... bom, deixar o sabor de chá lá na água com borbolha por algum tempo, depois pode colocar laranja, canela, açúcar, enfim, sempre se pode experimentar. Também disse a eles que colocassem água para ferver em xícaras no microondas, para que não mexessem no fogão, e, prevendo que iriam provavelmente esquecer a água fervida nas xícaras, enquanto brincavam de bater nos carinhas invisíveis na base secreta situada no meio do quintal, ajustei meu celular para que despertasse em 2 minutos para que eu pudesse ir a cozinha e verificar a bagunça.
Bom, posso dizer que os subestimei, pois quando cheguei à cozinha, encontrei xícaras melecadas de uma coisa extremamente gordurosa e amarela. Em cima da mesa havia um livro de receitas de bolo, nos ingredientes lia-se, logo na primeira linha: 3 colheres de chá de manteiga.
Leialti minimalista.
Outras baboseiras
sábado, 15 de novembro de 2008
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Kenji
Kenji saiu do Japão em 1905, ele tinha 15 anos quando deixou o seu país para imigrar para os Estados Unidos da América, onde trabalhou até conseguir respeito e uma loja. 40 anos depois, Kenji estaria pilotando um avião, derrubando bombas em cima de pessoas. Kenji não era um soldado. Kenji era apenas um homem. E as vítimas de suas bombas também não eram soldados, nem sequer eram americanos, eram homens japoneses. Homens que dormiam pela noite e acordavam pelo dia, como Kenji acordou um dia e se deparou com a notícia "Pearl Harbor bombardeada, os japas estão vindo", na primeira página, acompanhada de fotos de soldados estadunidenses morrendo. Seu mundo desabou, ele era apenas um homem com família e uma loja em Los Angeles, mas agora seria chamado de imigrante e seria levado junto com os outros japoneses para uma colônia. O governo deu a ele e aos outros japoneses apenas alguns dias para arrumar todas as suas coisas em duas malas, se não as tivessem, teriam direito a dois sacos de lixo para colocar toda a sua vida e se mudar junto com todos os outros japoneses malévolos para Manzanar. Kenji não mentiu para seus filhos, disse a eles que os EUA estavam procurando por espiões e que eles iam se mudar para Manzanar, junto dos outros japoneses. Em Manzanar, Kenji não mentiu tampouco, alertou a seus filhos que não encarassem os soldados e que não corressem, se os soldados achassem que eles estavam fugindo, poderiam ser baleados. Kenji não odiava os soldados, sabia que estavam apenas cumprindo seu trabalho. Entretanto, não deixava de ser desconfortável passar seus dias sendo vigiado por homens armados. Seus filhos, nascidos nos Estados Unidos, prisioneiros de guerra em seu próprio país. Kenji tinha esperança de sair de lá um dia, vivo, então não podia causar problemas. Surgiu uma oportunidade, aqueles que se juntassem ao exército estariam livres. Alguns homens se alistaram. Eles supostamente deixaram Manzanar em um vôo carregando duas bombas que acabaram com a guerra bem rápido. Duas cidades foram deixadas em pedaços. Kenji foi liberto, tinha esperanças de uma vida normal. Mulher, filhos e a sua loja. Quando voltou para casa, Kenji tinha as mãos pesadas, quando saíra carregava apenas a sua própria vida e a de sua família, agora carregava a vida de todos os homens que morreram pela sua liberdade. Que ele matara. Quando chegou em casa, o que Kenji viu o fez soltar aquelas duas malas, tendo o impacto de duas bombas atômicas em sua vida. As janelas estavam quebradas, toda a casa revirada e destruída, na parede, escrito em letras grosseiras de spray a seguinte frase: japas não são bem vindos.
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Hoho, esse texto foi inspirado, para não dizer copiado, de uma música de hip hop, só pro espanto global.
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Hoho, esse texto foi inspirado, para não dizer copiado, de uma música de hip hop, só pro espanto global.
domingo, 19 de outubro de 2008
Herói
Eu não tenho o poder, ou o usaria agora... ou não sei controlá-lo, se fosse o caso, o usaria agora, para voltar até a pessoa que o tinha. Sim, o poder de voltar o tempo, assim, como em magia, como nos livros do Harry Potter que você lia aos 15 anos e achava que a vida seria muito mais fácil se pudéssemos enfiar uma dúzia de pessoas em um carro, sair voando e atropelar árvores ou se tivéssemos o relógio que dava as voltas tais que voltariam o tempo na mesma quantidade, em horas. Bem, era mais ou menos isso, tirando o fato de que o tempo não voltava de verdade, o que acontecia era algo mais como anular um instante do tempo e acontecia assim: um olhar, e não estava mais lá. Mas eu o arruinei, essa pessoa que tinha esse poder incrível de fazer desaparecer completamente todos os meus erros. Eu não pude suportar, quando todas as vezes em que eu cometia um deslize, me lançava o olhar. A princípio eu apenas me constragia e tratava de me recompor, lá se ia o meu erro para o nada, junto com ele a raiva, o ressentimento, a tristeza, iam todas se encontrar num lugar que não era. Não era um olhar de repreensão, era um olhar que apenas me indicava o erro. Era um olhar que não se fechava para nada. Em absoluto, nada. Não é que ele fosse perfeito, pelo contrário, cometia muitos erros, e eu nem sempre os tentava ou mesmo queria corrigir, fosse pelo motivo que fosse, o meu olhar era apenas o de decepção, o de reprovação, repreensão, não era do tipo que poderia consertar as coisas, apenas torná-las piores, mais visíveis, escandalosas, dramáticas, angustiantes, terríveis de suportar, causar vontade de não mais existir. E, de alguma forma, eu tive a incrível capacidade em tornar aquela capacidade dele de fazer com que um momento ruim desaparecesse completamente também se tornasse uma dessas coisas que dão vontade de não mais existir. De desistir. Quando aconteceu eu achava aquilo irritante, aquela mania de sempre me tornar melhor, o apoio firme no qual eu podia vacilar com a segurança de que nada desabaria sobre mim, mesmo que eu achasse que devia ou que eu bem merecia, mas aquela atitude irritante a qual eu não conseguia desempenhar, mas apenas o contrário, fez com que ele declinasse cada vez mais e, quando, enfim, desisti dele, ele desistiu de si. Hoje eu sei a definição daquele que nunca se faz de cego para não ver o errado, hoje eu sei que aquilo que arruinei pode-se chamar por herói e a mim a minha atitude, prefiro que chamem de covarde.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
(In)felizes para sempre.
No decorrer de nossas vidas conhecemos muitas pessoas, mas dessas poucas pessoas, só nós dispomos a conhecer, de fato, algumas poucas, por um motivo ou outro que pode ser qualquer motivo realmente, como escolher livros, ou você os lê por indicação, ou se aventura diante da perspectiva que lhe concebe a análise superficial, a capa, a sinopse, as orelhas, os olhos, o sorriso... E por conseqüência são essas as pessoas que vêm a te conhecer verdadeiramente. As pessoas que irão receber o seu afeto. O seu pior lado. As pessoas que irão saber das suas tristezas, pois alegrias dividimos com todos, e tristezas apenas com aqueles que acreditamos que não irão nos abandonar e fugir ao primeiro sinal de desconforto. Curiosamente, as pessoas que derramam as lágrimas sobre os seus capítulos mais sombrios são aquelas que lêem as suas páginas até o final, as pessoas cujas lágrimas não se manifestam, seja molhando nossas páginas ou rolando para dentro de seus próprios frascos, incapazes de se mostrar, mas não de existir, as pessoas que só estão interessadas da certeza de finais felizes, elas não merecem estar ao nosso lado. Merecem apenas aquelas que podemos fazer sofrer. E em um processo contínuo as fazemos sofrer mais e mais, talvez para saber se ainda merecem estar ao nosso lado, se são leais, testamos-nas. Por outro lado, conhecemos também os motivos de agrado, somos tão capazes de recompensar como de testar. O contentamento do leitor advém das lágrimas que sente ao ler um livro até o fim. E o que é pior, afinal? Ter as suas páginas frágeis das lágrimas dos leitores que te acompanharam ou nunca ter sido lido até o final?
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Once again with my inspiring muse I lay.
With all this talking about desconstruction and trivialization of art, it's easy to become a frustrated artist. If anything can be observed from such an angle that makes it something worth appreciating and causes feelings, whatever feelings they may be, be they beautiful, tragic, sadistic or naive, but be them feelings which you feel crawling under your skin, anything can be represented in such a way that makes it worth appreciating, it doesn't matter if the word is written, spoken, drawed, coloured, gesticulated, that it express itself in such a way that it may be heard from the ears, from the eyes or that crawls under the skin.
But I can only see the poetry. The poetry of an old man that only hears when it is convenient or from the child that speaks the incovenient which will be conveniently ignored. And conveniently my inspiration disappears when I need her to represent whatsoever may be, that seems to me so worthy of representation, but all I can represent is my pathetic image in a bedroom, sitting in the front of a computer, the screen is clean, the bed occupied, the sheets covering my inspirating muse, the last time I called her she was conveniently sleeping. Shall I wake her like an incovenient child or lay with her and wait for her smile tomorrow or at least in my failed poet's dreams?
But I can only see the poetry. The poetry of an old man that only hears when it is convenient or from the child that speaks the incovenient which will be conveniently ignored. And conveniently my inspiration disappears when I need her to represent whatsoever may be, that seems to me so worthy of representation, but all I can represent is my pathetic image in a bedroom, sitting in the front of a computer, the screen is clean, the bed occupied, the sheets covering my inspirating muse, the last time I called her she was conveniently sleeping. Shall I wake her like an incovenient child or lay with her and wait for her smile tomorrow or at least in my failed poet's dreams?
Mais uma noite me deito com a musa inspiradora.
Com toda essa história de descontrução e banalização da arte é muito fácil se tornar um artista frustrado. Se toda e qualquer coisa pode ser observada de um ângulo tal que a torna algo digno de apreciação e suscita os sentimentos vários, sejam eles quais forem, sejam belos, trágicos, sádicos ou ingênuos, mas que sejam sentimentos sentidos que se sente revirando debaixo da pele, toda e qualquer coisa pode ser representada de uma forma tal que a torne digna de apreciação, não importa se na palavra escrita, falada, desenhada, colorida, gesticulada, que se expressa de alguma forma e que se faz ouvir pelos ouvidos, pelos olhos ou que revira debaixo da pele.
Mas eu só consigo ver a poesia. A poesia de um velho que só escuta quando lhe é conveniente ou da criança que diz o incoveniente que será convenientemente ignorado. E convenientemente a minha inspiração desaparece quando dela preciso para representar o que quer que seja, que me parece tão digno de representação, mas tudo o que posso representar é a minha figura patética em um quarto, sentada na frente de um computador, a tela em branco, a cama ocupada, as cobertas cobrem a minha musa inspiradora, da última vez que a chamei ela estava convenientemente dormindo. Devo eu acordá-la como uma criança incoveniente ou me deitar com ela e esperar que me sorria no dia de amanhã ou ao menos nos meus sonhos de poeta fracassado?
Mas eu só consigo ver a poesia. A poesia de um velho que só escuta quando lhe é conveniente ou da criança que diz o incoveniente que será convenientemente ignorado. E convenientemente a minha inspiração desaparece quando dela preciso para representar o que quer que seja, que me parece tão digno de representação, mas tudo o que posso representar é a minha figura patética em um quarto, sentada na frente de um computador, a tela em branco, a cama ocupada, as cobertas cobrem a minha musa inspiradora, da última vez que a chamei ela estava convenientemente dormindo. Devo eu acordá-la como uma criança incoveniente ou me deitar com ela e esperar que me sorria no dia de amanhã ou ao menos nos meus sonhos de poeta fracassado?
Perspectiva.
Quando chove, as pessoas se escondem. Elas têm papéis importantes, coloridos, numerados, preenchidos por letras, papeis que não podem molhar. Mesmo quando essas pessoas não estão carregando esses papéis, elas se escondem, elas se acostumaram a esconder-se da chuva, elas têm mil motivos.
- Não! A gente vai ficar doente!
- Deixa de ser boba, parece coisa de avó. Vem, a piscina tá gostosa.
- Não!
- Ai, você está muito chata!
- Chata? Eu estou chata por que não quero nadar com você na chuva?
- É, porque não entra debaixo da chuva, não sai no frio da madrugada, não come doce com as mãos, não pode fazer nada, porque tudo deixa doente ou dá trabalho ou qualquer desculpa.
- ...
- Tem sido um saco, sabia? Eu gostava mais quando você apenas não se importava com esse tipo de coisa.
- Mas é verdade, você sabe que eu não posso ficar doente, eu tenho que traba(Ah, não me venha com esse papo de trabalho, que droga! para que você trabalha, se não pode viver?)... Desculp(Desculpar o quê? Peça desculpa para você mesma)...
E contemplativos permaneceram, ele na piscina e ela de dentro de casa. Então sorriu, tirou sua roupa, se despiu do adulto responsável que havia resolvido representar, e entrou na água preocupando-se apenas com questões como quem consegue dar mais voltas na piscina, sem sair debaixo da água.
No outro dia acordou espirrando. Poderia até ter ficado nervosa e gritar com ele, mas ele lhe fez chá quente para tomar no café da manhã. O chá não ia realmente fazer com que ela melhorasse, mas ele poderia ser servido por mil outros motivos e vários deles valeriam o seu silêncio e alguns até o seu sorriso.
- Não! A gente vai ficar doente!
- Deixa de ser boba, parece coisa de avó. Vem, a piscina tá gostosa.
- Não!
- Ai, você está muito chata!
- Chata? Eu estou chata por que não quero nadar com você na chuva?
- É, porque não entra debaixo da chuva, não sai no frio da madrugada, não come doce com as mãos, não pode fazer nada, porque tudo deixa doente ou dá trabalho ou qualquer desculpa.
- ...
- Tem sido um saco, sabia? Eu gostava mais quando você apenas não se importava com esse tipo de coisa.
- Mas é verdade, você sabe que eu não posso ficar doente, eu tenho que traba(Ah, não me venha com esse papo de trabalho, que droga! para que você trabalha, se não pode viver?)... Desculp(Desculpar o quê? Peça desculpa para você mesma)...
E contemplativos permaneceram, ele na piscina e ela de dentro de casa. Então sorriu, tirou sua roupa, se despiu do adulto responsável que havia resolvido representar, e entrou na água preocupando-se apenas com questões como quem consegue dar mais voltas na piscina, sem sair debaixo da água.
No outro dia acordou espirrando. Poderia até ter ficado nervosa e gritar com ele, mas ele lhe fez chá quente para tomar no café da manhã. O chá não ia realmente fazer com que ela melhorasse, mas ele poderia ser servido por mil outros motivos e vários deles valeriam o seu silêncio e alguns até o seu sorriso.
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